A cortina ergueu-se. Avançou sobre o palco de modo firme e decidido, tal como era expectável daquela personagem. O público, indistinto, exalava um aroma de hálito, perfumes, roupas guardadas. Era exigente, sabia-o, mas não se deixava intimidar. Invocando passo e porte, voz e vontade, começou.
Duas horas de solilóquio, uma prova para qualquer talento. Inabalável, tomava o pulso ao ar, às correntezas das emoções humanas, conduzindo-as como se fosse um Prometeu.  
Submersa pela escuridão, a sala era um ser vivo. Ávida, a sua grande boca assimilava em igual medida as subtilezas e os grumos do discurso. A fina ironia, a locução mais profunda ou pungente. Os silêncios, as expressões do corpo e da face.
A sintonia era perfeita. Uma energia una.
De olhos brilhantes,  a convicção inabalável, proferiu a última palavra.
Pausa. Palmas esmagando o espaço. Rugido contínuo. Admiração. A sua presença reclamada ao palco vezes de perder o conto. Glória!
Ainda sob o peso da ovação, as luzes acenderam-se por fim. Mais uma noite, o teatro permanecera vazio.

― Fernanda O’Brien ―

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