A cortina ergueu-se. Avançou sobre o palco de modo firme e decidido, tal como era expectável daquela personagem. O público, indistinto, exalava um aroma de hálito, perfumes, roupas guardadas. Era exigente, sabia-o, mas não se deixava intimidar. Invocando passo e porte, voz e vontade, começou.
Duas horas de solilóquio, uma prova para qualquer talento. Inabalável, tomava o pulso ao ar, às correntezas das emoções humanas, conduzindo-as como se fosse um Prometeu.
Submersa pela escuridão, a sala era um ser vivo. Ávida, a sua grande boca assimilava em igual medida as subtilezas e os grumos do discurso. A fina ironia, a locução mais profunda ou pungente. Os silêncios, as expressões do corpo e da face.
A sintonia era perfeita. Uma energia una.
De olhos brilhantes, a convicção inabalável, proferiu a última palavra.
Pausa. Palmas esmagando o espaço. Rugido contínuo. Admiração. A sua presença reclamada ao palco vezes de perder o conto. Glória!
Ainda sob o peso da ovação, as luzes acenderam-se por fim. Mais uma noite, o teatro permanecera vazio.
― Fernanda O’Brien ―
Imagem: iStock
14 de Novembro, 2022 at 11:29
Belíssimo, Fernanda!
Um crescendo e o seu anticlímax.
Como fazer, quando só o anfitrão comparece?
24 de Novembro, 2022 at 5:41
Isso é um monólogo, sem dúvida. Falar, interpretar para si… seja onde for: diante de um espelho ou num palco…
A mágia do teatro!!
Muito bom, Fernanda!! Adorei o processo que me obrigaste a fazer como leitora!! Os meus parabéns!!!
🙂