Os brilhos das porcelanas, cristais e pratas, também o perfume dos arranjos de flores, davam as boas-vindas aos convidados.
As conversas cruzadas a meia-voz, convergiam numa interrogação perplexa: porque haviam sido convidados? Embora todos conhecessem o anfitrião, ninguém se tinha sequer visto.O mordomo, olhar no vago, em postura de circunstância, aguardava ordem para servir a primeira bebida.
Quase todos os convocados ocupavam os lugares marcados, quando, após o ruído do rodar do fecho e do ranger da porta lateral, se ouviu estrondo seco. Quem imediatamente se precipitou para o corredor, encontrou o anfitrião estendido no chão. Morto. Uma flecha minúscula espetada na testa. Na mão uma folha de papel.
Com um joelho no soalho, depois de, em silêncio, ler as primeiras linhas, Poirot ordenou – Que ninguém beba ou coma o que quer que seja!
Olhando fixamente para a décima quarta convidada, última a chegar, acrescentou: – Que ninguém abandone a casa!
Era claro o alívio assumido na expressão da mulher que o detetive não conhecera, mas agora identificava como a condenada na história suja, triste, injusta, que há anos seguira nos tribunais.
Após a sentença, para ela o dia nunca mais rompera. Preço por afrontar quem se entendia dono de outros.

― Isabel Mattos ―

Imagem: Graça Morais
Da série – Metamorfoses da Humanidade