Entre a mão e o antebraço, uma luva branca de cetim. No pulso, junto ao peito, uma pequena mala de senhora. O convite tamborilava entre os dedos. Tremia. Sem espelhos em casa, usava a tampa da panela de metal para um último olhar. Estava pronta. O arame farpado envolveu, delicadamente, o seu pescoço. Picava, picava até que ouviu o barulho da mala no chão. Ainda agarrada ao convite, algumas gotas de sangue pintalgavam o branco do cetim.
Vai Cinderela! – disse a Fada Madrinha.
― Viviane Luis ―
Imagem: Felicity Lynn
10 de Novembro, 2022 at 9:03
Um conto hipnotizante entre a delicada beleza dos detalhes e esmagador curso do destino.
Ontem, por acaso, vi o filme «O Leitor», que logo me remeteu para esta gata borralheira. Ou será a cinderela?
Maravilhoso, Viviane!
Obrigada.
10 de Novembro, 2022 at 19:39
Uma Cinderela “noir”, com ecos de Branca de Neve e Sereiazinha que ousa desconstruir arquétipos femininos tradicionais. Perturbador, também por isso.
24 de Novembro, 2022 at 5:49
Uma Cinderela com gotas de sangue que pintalgavam o branco de cetim é uma Cinderela forte, capaz de tudo. Adorei a panela como espelho… Sem dúvida, uma Cinderela esperta!! Uma mulher independente!! Uma MULHER! Talvez pela aparição do sangue vermelho lembrei-me da simbologia do Chapeuzinho… Parabéns, Viviane!! 🙂