A decisão fora tomada numa fração de segundo, o disparo da flecha, rápido e certeiro.  No chão, ainda quente, magnífico, o animal era um montículo sobre a neve.

O momento era de regozijo. A captura significava o término da fome, o regresso da esperança. As tendas seriam remendadas. Far-se-iam sapatos novos para os idosos, amuletos mágicos para todos. O leite enriquecido das mães traria alento ao brado das crianças e os corpos robustecidos dos guerreiros aqueceriam as noites com promessas de fertilidade até à primavera. Haveria cantares, danças que celebrariam a montanha e a lonjura.

Sim, não era só um grande caçador; era sobretudo um homem de muita sorte, pensou, enquanto contemplava a presa, inerte a seus pés. Um alce, o seu animal totémico. Cujo espírito, segundo os ancestrais, partilhava consigo a afinidade subtil das coisas invisíveis. Que zelava e protegia. Cujo funesto abate era certo augurar-lhe desgraça ou maleita.

E, inclusive, a própria morte.

― Fernanda O’Brien ―

Imagem: Bloody snow by Slit to My Guts, Deviant Art