A decisão fora tomada numa fração de segundo, o disparo da flecha, rápido e certeiro. No chão, ainda quente, magnífico, o animal era um montículo sobre a neve.
O momento era de regozijo. A captura significava o término da fome, o regresso da esperança. As tendas seriam remendadas. Far-se-iam sapatos novos para os idosos, amuletos mágicos para todos. O leite enriquecido das mães traria alento ao brado das crianças e os corpos robustecidos dos guerreiros aqueceriam as noites com promessas de fertilidade até à primavera. Haveria cantares, danças que celebrariam a montanha e a lonjura.
Sim, não era só um grande caçador; era sobretudo um homem de muita sorte, pensou, enquanto contemplava a presa, inerte a seus pés. Um alce, o seu animal totémico. Cujo espírito, segundo os ancestrais, partilhava consigo a afinidade subtil das coisas invisíveis. Que zelava e protegia. Cujo funesto abate era certo augurar-lhe desgraça ou maleita.
E, inclusive, a própria morte.
― Fernanda O’Brien ―
Imagem: Bloody snow by Slit to My Guts, Deviant Art
23 de Outubro, 2022 at 22:08
Fernanda, que maravilha de conto!
Adorei esta contextualização: uma história talvez pré-histórica que sobreviveu para nos lembrar que a sorte pode ser boa ou má… 🙂 Depende da perspetiva. Sempre!!
Lembra-me também de uma história chinesa de um agricultor que faz refletir sobre o valor dos acontecimentos da vida assim que o tempo passar… Às vezes, o tempo altera a perceção da realidade.
Texto muito bem escrito, que deve ser lido duas ou três vezes para saboreá-lo… Belo, Fernanda!! Parabéns!!