Algo estrídulo, qual poalha em suspensão, o assobio insinuava-se pelo sono adentro, inopinado ainda àquela hora densa e baça em que a maioria dos seres se agasalha na ausência. Serpenteando por entre o incómodo e a surpresa iniciais, o rumor adquiria definição, cinzelava-se, para desembocar no chilreio nítido de uma pluralidade de vozes. Mas não se restringia à concertação dos sons: elevava-se acima da terra numa liturgia impregnada de sentidos. Indistinguível da própria natureza, cantando-se a si própria, glorificava a luz, todas as coisas em que esta se transubstancia, a existência pura. Agora, os mistérios já não o eram mais e eu entendia a linguagem das aves.
Em comunhão com o ar, o ser incindível, estendi os braços ao primeiro fulgor da alvorada, e voei.
― Fernanda O’Brien ―
Imagem: Akin Akdag para Pexels
7 de Junho, 2023 at 13:37
A magia da música, mágica! A Fernanda conseguiu fazer-me ouvi-la, talvez não a mesma, mas voei com os pássaros de Messiaen, voei sobre o texto-asa que a Fernanda teceu, e foi / é muito bom.
14 de Junho, 2023 at 21:12
Quem nunca na alvorada quis voar e ser livre? Naquele momento em que despertamos…um belo texto cheio de esperança.