Hoje acordo e pergunto como sempre: – Passou uma hora? Um mês?
Não há tempo dividido, só eternidade, neste poço largo onde, ao fundo, mais abaixo, na luz fraca e baça, se movem vultos brancos entre sons indistintos a meia voz.
Mas hoje não vejo na parede o desenho verde-alucinado de uma grande alface.
Hoje não saio em precária efémera consentida pelos entorpecedores, em fuga à dor total. Hoje distingo uma expressão amável e ouço nítidas as palavras:
– Vamos desentuba-la e vai para o quarto.

― Isabel Mattos ―

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