Quando começou não sei se sou capaz de dizer. Lembro-me, vagamente, daquele dia de início de inverno em que a polícia rondava o bairro. Não é que fosse uma novidade, mas naquele dia, a sirene ecoou mais nos meus ouvidos. Senti os meus brincos, umas argolas douradas pesadas, a vibrarem nas minhas orelhas. Tinha muito cuidado com os brincos que usava – quantas vezes meus cabelos engancharam neles e rasgaram a carne. Ultimamente, usava os meus longos e revoltosos cabelos apanhados, no alto da cabeça, com um elástico que finalizava com um lenço. Comprei de várias cores. Naquele dia, em que a sirene do carro de polícia gritou mais alto, era vermelho o lenço. Não acredito muito em coincidências, mas o sangue também é vermelho. Era fim de tarde de um dia de inverno, eu tinha atendido o meu último cliente e estava me preparando para fechar o salão. Apaguei as luzes, dei a volta no trinco, e senti como num susto um respirar ofegante no meu ouvido. Parecia mais um zumbido, um estalar de qualquer coisa – metálica. Os fios dos meus cabelos castanhos misturaram-se com o sangue que escorria como um rio da minha cabeça. Têmpora – diz o médico e eu já aprendi a dizer também. Não sou Sansão, mas a verdade é que sem os meus cabelos falta-me qualquer coisa. Falta-me muito. Como uma perna ou um braço. A operação foi bem-sucedida. Conseguiram extrair o projétil alojado. Devias estar grata por estar viva – dizem-me. E eu estou. Uma alma caridosa recolheu os meus cabelos à medida que iam sendo cortados para a operação. Ainda me recupero. Talvez mais alguns meses. Quando sair daqui, não quero ter mais cabelos compridos. Minha cabeça gostou de respirar o ar puro sem intermediários.

― Viviane Luis ―

Imagem: Rao Desi