Surpreendem-me de todas as vezes que te deixo. São duas adagas finas, que lá longe, em Samarcanda, um mercador com artes de prestidigitação acabou de lançar ao espaço. Sinto quando me atingem, se cravam no topo da garganta, paralelas, até ao punho. A descida lenta e profunda na carne. Detêm-se, por fim, junto às clavículas, onde o sangue conflui para o centro, formando uma pequena poça escarlate. Espesso, o líquido escorre num único fio até ao coração, cobrindo-o de uma massa escura e gélida.

Descubro, ao mesmo tempo, um par de cães andaluzes pousados nas têmporas. Parecem mansos, mas quando vou para os afagar, espetam-me a sua garra mais afiada no olho que lhes está mais próximo, rasgando-o na horizontal. As nuvens deslizam diante da lua.

No dia em que, cansadas do voo, as lâminas tombarem a meus pés e, vencidos pela preguiça, os mastins adormecerem, ficará lavrado o desfecho: não mais tornarei.

― Fernanda O’Brien ―

Imagem: Salvador Dali – Eye with a View