A meio da noite, na carruagem, acordei estremunhada. Não sei o que me acordou do sono: talvez a já próxima chegada a Portugal, ou o cansaço da viagem.
Foram três semanas intensas, por vários países de uma Europa limpinha e arrumada.
Agora era tempo de conhecer «algo completamente diferente».
Mas era outra coisa, o que me tinha acordado: Apercebera-me de um velho sentado no banco seguinte. Parecia morto, mas podia estar só a dormir.
Fui acordá-lo. Falou um pouco, mas o discurso não fazia sentido. Fiquei apreensiva: o que é que se passa? Já de manhã, vieram dar-lhe uma injeção. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço e, logo começou a fazer tudo o que lhe diziam: Esquerda! Direita! Senta! Levanta! Já estava a fazer efeito.
Chegámos, entretanto, a Lisboa.
Esperava-me um simpático casal, que logo me tirou as dúvidas. Os inertes também já cá andam, disseram, mas agora vamos tratar de te instalar e ver o que podemos fazer para te manter livre, por aqui. É essa a nossa missão. Benvinda!

― Teresa Gonçalves ―