Colada à noite, avanço num passo de gato. Adivinho-a na penumbra, o corpo pequeno e magro, tão frágil que dir-se-ia flutuar. Destapou-se. Cobre-a uma película fina de brilho: terá tido calor. A respiração é leve, quase ausente. Certifico-me de que existe, que continua, na sua cadência breve. Sou agitada por uma inquietação e inclino-me sobre ela, talvez da mesma forma que, animada por um receio idêntico, se terá debruçado, ainda jovem, sobre o meu berço.
De súbito, os contornos da matéria palpável dissolvem-se, e entro num lugar de ternura absoluta e sem forma, que suspende o tempo.
Um ténue adejar de asas interrompe o transe, e recorda-me que os anjos estão cada dia mais perto.
― Fernanda O’Brien ―
Imagem: Pexels
19 de Dezembro, 2022 at 15:29
A beleza da essência.
Um conto de Natal (e de todo o ano) maravilhoso.
Obrigada, Fernanda.
20 de Dezembro, 2022 at 7:07
Fernanda, grande sensibilidade!! Adorei o uso da linguagem! “Passo de gato”, “Penumbra”, “cadência breve”… Sensibilidade, sensualidade (mas os anjos têm sexualidade? ), mistério, beleza!! Esse adejar de asas…
Parabéns, Fernanda!! Que maravilha!! É um conto de anjos cheio de sensações bem humanas!!