Colada à noite, avanço num passo de gato. Adivinho-a na penumbra, o corpo pequeno e magro, tão frágil que dir-se-ia flutuar. Destapou-se. Cobre-a uma película fina de brilho: terá tido calor. A respiração é leve, quase ausente. Certifico-me de que existe, que continua, na sua cadência breve. Sou agitada por uma inquietação e inclino-me sobre ela, talvez da mesma forma que, animada por um receio idêntico, se terá debruçado, ainda jovem, sobre o meu berço.
De súbito, os contornos da matéria palpável dissolvem-se, e entro num lugar de ternura absoluta e sem forma, que suspende o tempo.
Um ténue adejar de asas interrompe o transe, e recorda-me que os anjos estão cada dia mais perto.

― Fernanda O’Brien ―

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