Parece-me tão estranho que, pela menina dos teus olhos, consiga ver refletido
o teu interior. Não deveria ser possível: o preto costuma esconder. Mas em ti o
negro é claridade. Uma superfície onde tudo o que sentes se projeta, como
num ecrã de cinema.
Olhar-te de frente é atravessar um espelho que devolve aquilo que tu ainda não
sabes nomear. Há em ti uma fissura por onde escapam emoções que tentas
guardar. Como se o corpo te traísse.
Às vezes penso que és feito de uma matéria que não domina o segredo.
Outras vezes temo que essa nitidez seja visível apenas para mim, e não para
ti. Como se os teus olhos fossem a fresta involuntária das tuas emoções
revolvidas, uma abertura mínima que revela o que tentas esconder até de ti
mesmo. Eu, que nunca pedi esse acesso, carrego tudo o que vejo como quem
segura uma lâmina de vidro fina. Com cuidado, com receio. Se descobrisses
que eu estou apaixonada pelo que vejo, quebrarias ou acabarias por fugir.

― Mònica López Bages ―

Imagem: Cup of Couple