Era meia-noite.
Ficou parada junto à janela, a observar o céu encher-se de luz e estrondo. Entre um ano e o outro não há muro nem ponte, apenas uma linha invisível que atravessamos sem perceber. Todos acreditam que algo muda, pensou, o tempo recomeça, as promessas ganham raiz, o futuro abre-se como uma porta nova.
Mas a verdade é mais subtil.
Nada realmente começa ali — apenas continuamos, com a mesma alma e as mesmas perguntas. Ainda assim, há quem sinta um leve estremecer ao cruzar essa fronteira que não se vê.
Talvez porque, por um instante breve, acreditamos que a vida pode ser redesenhada.
E às vezes, só essa crença já muda tudo.
― Ana Lecoq ―
Imagem: Patrick Schaudel on Unsplash
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