Era preciso coordenar o balanço das ancas. Com o quê?
Na cabeça, um zumbido sem memória de coisa alguma emudecia
qualquer resposta. Debaixo da pele jovem, reduzida a papel de embrulho e
que um vórtice interno sugava para dentro, jaziam o abdómen, o rosto,
igualmente côncavos.

Inspirou fundo. Primeiro pela narina direita, depois pela esquerda. Socorrendo-se das costas do indicador, limpou uma de cada vez, enquanto lançava um último olhar ao espelho.

Deu meia-volta e, sem hesitar, firmou o passo sob as luzes ofuscantes.
Amanhã reunir-se-iam na ilha dos amores, finalmente sua com os dois
milhões que valia aquele desfile.

― Fernanda O’Brien ―

Imagem: Pexels, Ricardo Garcia