Tomando conhecimento da sentença, as pessoas desceram às ruas, primeiro devagar,
até formarem uma torrente de vozearia, um clamor de raiva e fúria, proclamando
injustiça, fazendo exigências de reparação.
Os ventos depressa levaram a notícia. Ao princípio não acreditou, julgando confundir
o zumbido com o roçagar das grilhetas. Quando os brados se tornaram inteligíveis,
percebeu que expressavam uma descoberta profunda. Doravante seria assim,
caminhariam sozinhos. Ele, do alto do Cáucaso, continuaria a amá-los como sempre.
Olhou para o sol, que há pouco nascera. Sorriu incontrito, enquanto outra águia se
precipitava para lhe arrancar mais um naco de fígado.

― Fernanda O’Brien ―

Imagem: Valdemars D., Unsplash