Insinuava-se como um amargo de boca, uma sensação que se aninhava a um canto e ali ficava, a germinar, ganhando camadas. Ainda invisível, era já dura como um segredo feroz. O toque metálico e frio, o som nítido quando neles embatia, distinguia-a dos dentes. Enquanto encorpava, passeava-se pelas gengivas sem se lhes aderir, rebolava sobre a língua com a tenacidade de uma pastilha elástica que não admite ter perdido o sabor, encostava-se ao palato com a impertinência dos conquistadores. Com o tempo tornava-se tão familiar como uma deformidade vinda a infância ou inócua como a própria saliva.

Preciosa reconheceu os sinais, as primeiras contrações. O contrário de um engasgue. Sem pressa, descolou-a da parte interna do lábio inferior. Segurando-a entre o polegar e o indicador, deteve-se a contemplá-la durante um instante. Depois conduziu-a até à luz: uma esfera do tamanho da íris, sobreposições de iridescência. Sem desprender o olhar, pousou-a na mão esquerda. Juntou ambas as palmas e fê-la deslizar entre uma e outra. Quase não tinha peso.

Sorriu.

O dissabor garantira-lhe a que faltava para uma primeira volta de colar.

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― Fernanda O’Brien ―

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