Irá acordar dentro de dois segundos e quarenta e sete centésimos. Assaltado pelo caos, arrastará consigo sonos que se enroscam por detrás de outras paredes, outros tetos. Alguns limitar-se-ão a constatar o facto. Outros culparão os pais de hoje em dia, a qualidade da construção, a própria vida, é assim mesmo, não tem remédio, enfim, coitadinho, já todos fomos pequenos. Acontece há quase seis meses, quase seis meses sem pregar olho nem
estopa a partir daquela hora.

Só eu sei a verdade. Descobri-o por acaso, quando encontraram um sem-abrigo enregelado alguns vãos mais abaixo, e, até lhe amputarem as falangetas gangrenadas e o receberem numa casa de acolhimento, a criança não se calou. É uma criatura especial, sensível a vibrações impercetíveis, que só os mais finos cristais extraterrestres conseguem acusar. Por vezes, chora dias a fio de rosário: porque foi descoberta uma baleia encalhada numa costa da Austrália ou morreu a última estrela de uma galáxia que já não existe. Se eles suspeitassem, na próxima reunião de condomínio arranjariam maneira de me escorraçar dali para fora, pois se o bebé desperta, é por minha causa.

Acordei agora, de supetão. Sim, atrevi-me a violar os dois segundos proibidos em que o universo exala e se imobiliza. Preso no instante em que os ventos param de soprar, as ondas suspendem o movimento, os notívagos perdem a consciência e os corações não batem, a minha solidão é absoluta. O pânico torna-se ingerível. Ele, sonhando algures num andar que desconheço, sente que o equilíbrio foi corrompido, teme a sua irreversibilidade e por isso o pranto, torrencial durante horas.

A mãe, o corpo implorando por quietude, irá lutar ainda algum tempo, mas o sobressalto não admite derrotas. Num estado próximo da cegueira, dará início à peregrinação, os pés hesitando sobre texturas, temperaturas. Desarticulada, cada olho suspenso no seu prato de uma balança de ourives, chegará ao pé dele num momento sem registo.

– Oh, dirá, perdeu a chucha! Tomá-lo-á na elipse dos braços e quando, amornado já pelo sol, o seu gesto ficar completo, todos tornaremos a adormecer.

― Fernanda O’Brien ―