A Mãe ajoelhada sobre o desalinho, papéis e livros espalhados lembrando a neve. Revirada, as entranhas de fora, a secretária debaixo da qual eu costumava brincar em segredo. No ar, em suspensão, o ruído das teclas da máquina de escrever, agora ausente, tal como o Pai.
Será que ele ainda conseguiu ouvir o estertor, entrecortado mas idêntico, ou terão as balas sido mais rápidas?
Espessos, entalados no crânio à semelhança do gancho que esgueirei entre as juntas do compartimento falso, os passos abafados pela noite onde, clara, a voz do Pai emerge numa sentença derradeira:
– Nada temos a esconder.

― Fernanda O’Brien ―

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Imagem: Jean Harder (1915 – 1991)