Há uma coisa que nunca disse a ninguém. A mim-mesma disse-o muitas vezes, embora jamais sob a forma de palavras, em soluços ou lágrimas, sim, mas mesmo estes de forma silenciosa e em segredo. Tenho de ter sempre boa cara, sorrir, a minha vida disso depende, é o meu trabalho, então, o que vão querer?, já escolheram?, claro, com certeza, peço desculpa se não está do seu agrado, quanto mais sorrir maior será a gorjeta, sorrir para que voltem e dessas misérias dependem o lanche do meu filho, as flores da minha avó.

Aos domingos de manhã, antes da missa e da procissão familiar, a casa ficava doce, parecia que a avó, de repente, tinha crescido e tomado conta de todas as divisões, agora maiores, mais quentes, com sabor a limão, a canela: os biscoitos que a sua paciência me deixava moldar, avó, olha uma flor, esta é a Nani, avó, olha um gato, bigodes e tudo, quando ainda eram doces, antes do feitiço mau que os mergulhou em sal grosso e azedas desmaiadas.

Olho para o retrato dela e a boca não me chega para tanto vazio, salvo à hora da telenovela, quando danço e a avó regressa. Diz, reza por mim filha e eu rezo, mudo as flores silvestres na jarra do pequeno altar, pousada junto ao seu rosto cada dia mais ténue, avó perdoa-me, avó, eu não sabia, tu nunca disseste a ninguém, perdoa-me pela nota que fazia a conta certa, aquela de que precisavas para não seres estrangulada pelos teus próprios pulmões, naquela noite, enquanto a música me embalava nos braços de um suor novo e eu acreditava na eternidade.

― Fernanda O’Brien ―

Imagem: Pexels – Demis Massaris