Com a exceção de uma ou outra gaivota indiferente ao rasto fácil das traineiras, ninguém se aventura tão longe. Apenas interrompida por um casario esparso, a foice amarela da areia corta o azul ao meio. A duas braçadas dos barcos ancorados ao largo, ondulo no chouto pacato da tarde.
A meio do verão, o meu bikini favorito tornou-se imprestável. Ruço, as tiras finas como se fossem esparguete. A parte de baixo, frouxa obriga-me a agarrá-la de cada vez que entro no mar. Na idade em que o pudor não para de correr atrás do corpo.
Mas amanhã irei estrear outro. Comprei-o há pouco com a Mãe, antes da descida ritualística até à praia. Aproprio-me devagar, segundo uma ordem interna que não admite desvios, exige reserva, contenção. Será revelado à claridade e aos outros num tempo exato.
Por ora, sou elemental. Entre o músculo e a água não há membrana, e quase consigo ser livre. No ar, súbito ponteiro de bússola, o pescoço gira e estaca. Mas… ela prometeu-me… que…. Não! E o olhar acompanha o gesto, a mão no saco da praia, alguns passos, o cotovelo estendendo o meu novo objeto a umas figuras exíguas. Para que o vejam.
Quando piso o areal, não sou mais a mesma. E, embora ela jamais venha a saber, no arco daquele movimento algo se estilhaçou entre nós de forma irrecuperável, para todo o sempre.
― Fernanda O’Brien ―
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Imagem: Bryce Carithers – Pexels
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