Sobre…
As mulheres e Lydia Davis
A ambivalência do número treze. Sorte ou azar, malefícios ou benfeitorias? O que cabe num número é um universo, sem limites, nem fronteiras: o infinito, por certo, e neste número nada falta. Tudo é caminho. Lydia Davis, reconhecida contista norte-americana, converteu em mulher o treze e assim, começa o conto, a instigante narrativa breve, de «A Décima Terceira Mulher»: Numa cidade de doze mulheres havia uma décima terceira… e esta mulher, supomos nós, por carregar tal número, esta matemática, era apartada daquela comunidade: “ninguém devolvia o seu olhar” e os fenómenos naturais recusavam-se a interagir com ela: nem sol, nem chuva, nem dia, nem noite. Nada acontecia, mas havia segredos guardados: “os anos não corriam” e “sua casa não tinha número” e “ela continuava a viver na cidade sem se magoar com o que aquilo lhe causava”. Mais do que um segredo, havia um mistério com essa mulher que não tinha nome, mas era plena em identidade. A Décima Terceira Mulher era solitária, mas não se sentia só. Muito menos amarga. Sem recalques, vivia a vida, nos dias e noites, semanas e anos, a seu tempo. Um dia, porém, numa noite mais longa, em que o café na chávena, já arrefecera, nos enviou uma enigmática mensagem, manuscrita, com uma letra bonita: mais do que companhia, quero um legado. E assim, no papel em branco, nasceu, de parto natural, a Décima Quarta Mulher.
― Viviane Luis ―
Entre espelhos e versões : A Décima Quarta Mulher
De todas as mulheres da tribo, era a que desfrutava da existência mais subtil. Quase ninguém se apercebia da sua presença, mas era imprescindível. Alimentava-se de sílabas átonas, da terminação das declinações, alguns tempos verbais, um ou outro neologismo. A ortodoxia conferia-lhe mais brilho do que qualquer bálsamo para a pele e a sua beleza era estonteante. As outras mulheres sentiam ciúmes e, mais por instinto do que premeditação, começaram a dizer coisas tais como, “clarificar”, “budget” ou, “ao fim do dia”. Isso deixava-a nauseada e infeliz. Sumia-se por períodos de tempo indeterminado, durante os quais reinava um silêncio paralisador. Havia tentativas de comunicar com gestos, mas até esses fracassavam. Depois regressava, recomposta, mas ainda com restos de cinzas nos cabelos, as vestes andrajosas e rasgadas. E, como era feita de palavras, embora não todas, voltava a andar na boca do mundo.
― Fernanda O’Brien ―
A décima quarta mulher estava sempre lá. Pronta. Disponível. Forte. Inamovível.
Um pilar.
Corria, se fosse preciso. Assistia a tudo e a todos. Não suportava falhar. Não imaginava falhar.
Era pontual. Obcecada com os compromissos.
Ao virar a página, deixou-se levar. Pela música, os sons, os cheiros, as palavras.
Deixou de ter compromissos. Um dia. Uma hora. De cada vez.
― Teresa Gonçalves ―
A Décima Quarta Mulher é um desastre na cozinha. Ela entorna o caldo; deixa queimar a cebola e o alho, no azeite; não sabe distinguir salteado de bringido; o arroz fica em papa; as batatas sempre cruas; o estufado sensaborão; o assado queimado. Quando olha à sua volta e vê o caos em que está a cozinha, pensa: “Já sei! Vou fazer bolo de chocolate para o jantar!”
― Ana Lecoq ―
Numa cidade de doze mulheres e uma décima terceira, havia uma décima quarta mulher. Vestia as roupas mais suaves, era bela e tinha a subtileza de uma deusa do Olimpo. Todos a queriam cumprimentar. O sol só brilhava para ela, e a chuva transformava-se em espuma de algodão quando a tocava. Quando caminhava o chão cobria-se de flores, e desenhavam-se pétalas cor de rosa nos vidros das janelas das casas que a olhavam. Na sua mesa serviam-se os melhores manjares, e todos os dias chegava uma carta para ela. No entanto, quando a noite caía, desaparecia no reflexo do único espelho da casa sem número da décima terceira mulher.
Esticada e tufada, gostava de mandar. E jactava-se do que ela tinha e do que nunca iam ter as demais. Ficou sozinha. Toda a vida. No dia que a morte bateu à sua porta, disse-lhe, sem um por favor, que tinha de esperar. A morte, aturdida e esbranquiçada, ouviu como ela ligava a encomendar flores e flores e flores para que as outras treze, que não a acompanhariam na igreja, sentissem inveja do luxo e da magnificência do seu funeral.
― Mònica López Bages ―
A 13.a mulher “ continuava a viver na cidade sem se magoar com o que aquilo que lhe causava”, no entanto, apesar de tudo, ela gerou uma filha sem que ninguém a olhasse ou batesse na sua porta ou percorresse a trilha do seu jardim ou usasse a sua cama. Agora eram duas a viver ali e viam-se e sentiam-se porque, no entanto, apesar de tudo, afinal a 13.a mulher precisava de alguém para não se magoar. Deram-se as mãos e …. alguém trocou com elas o olhar.
― Isabel Mattos ―
Numa cidade de 12 mulheres havia uma décima quarta. Alguns diziam que havia uma décima terceira mas ninguém sabia onde morava, onde existia. Outros afirmavam que não havia, mesmo – o número 13 dá azar. Todos conheciam a décima quarta mulher: era vistosa. Tinha a casa bem cuidada, um jardim cheio de flores, camélias, ia à missa ao domingo, ajudava os mais necessitados, ia ao correio enviar cartas e buscar encomendas, ia ao supermercado. Um certo dia, chegou a altura dos censos. Ficou registado oficialmente que a cidade tinha 13 mulheres. Os supersticiosos resolveram o assunto: num ápice a cidade voltou a ter 12 mulheres, oficialmente.
Nota explicativa: «A Décima Quarta Mulher» é o título do exercício inspirado em «A Décima Terceira Mulher» de autoria de Lydia Davis proposto no âmbito do Curso Microcontos nível II, promovido pela Escrever Escrever, realizado entre 6 de outubro a 24 de novembro de 2021.