No dia seguinte, o quarto parecia suspenso num outro tempo.

O lençol, amarrotado, guardava a forma sinuosa dos corpos e o perfume da noite.

Ela permaneceu imóvel, a escutar o som distante da cidade a acordar, como quem teme quebrar o doce feitiço.
Ele dormia ainda, sereno, e por um instante tudo o que existia era o respirar dele — lento, seguro, inevitável.

Esboçou o gesto de se levantar… mas o mundo lá fora parecia demasiado real.
Voltou então a fechar os olhos e deixou-se ficar, entre o murmúrio e o sonho, onde o amor ainda não tinha partido.

― Ana Lecoq ―

Imagem: Kelly Moon on Unsplash