Ela estava sentada no muro da velha casa, os pés a balançar no vazio, quando ele chegou.
“Estás com frio?” – perguntou, reparando nos ombros tapados mesmo com o calor de Julho.
Ela sorriu, sem responder, pousando o olhar na ponta dos pés.
Desde pequena, aprendera a esconder-se: os braços, as pernas, os olhos, o coração…
Ele sentou-se ao seu lado, sem pressa, e ficou ali, a falar do vento, das ondas… das coisas que não doem.
Quando os dedos dele roçaram nos dela, ela não fugiu. O coração bateu descompassado mas, pela primeira vez, não teve vergonha.
Chamou pudor, ao que sentiu.
Chamou amor, ao que ficou.
― Ana Lecoq ―
Imagem: Freepik
31 de Agosto, 2025 at 14:35
Que história tão linda, Ana, e que final tão poético com este paralelismo… Adorei! Os meus parabéns!
10 de Setembro, 2025 at 13:41
Esta história toca o coração de forma delicada. A transformação da vergonha no amor é intensa e real. Um microconto que nos faz refletir sobre como as coisas mais simples podem ser profundas. Muito bonito!