– Também eu tive a minha Sherazade. Todas as noites, uma história. Ela principiava com, “era uma vez” e acrescentava algo mais. Depois, eu pegava na deixa e assim prosseguíamos, num jogo de alternâncias que podia durar até de madrugada. (Pausa). Era profundamente erótico (Suspiro). Dormi pouco durante esse período. (Pausa).
De entre tantas que tive, não foi a mais bonita, ou a mais inteligente, nem sequer a mais sensual. Terá sido, sem dúvida, a mais criativa. Inocente, também. Talvez por isso, nunca a tenha esquecido. Não sei o que lhe aconteceu.
Deve ter seguido o percurso normal, não era pessoa para se perder. Casada com um sujeito mediano, três filhos, um cão. (Pausa)
As ilusões que uma pessoa tem quando é jovem. (Sorriso nostálgico). Trocámos muitas juras de amor. Para sempre, dizíamos.
As originalidades do costume. (Pausa). A outra coisa de que me recordo, é do seu corpo, sobretudo a pele, completamente homogénea, como se tivesse sido esculpida num círio bento, marcada apenas por quatro sinais, únicos, formando uma cruz bem junto à nuca. (Suspiro).
No dia dia seguinte, o outro, que com graus variáveis de atenção escutara o relato, dirigiu-se ao cemitério, não sem antes ter passado por uma loja de ferragens. Erguendo a picareta mais aguçada que encontrou, desferiu o primeiro golpe. Satisfeito com o resultado procedeu, então, à destruição sistemática do registo de sessenta anos de matrimónio feliz sobre a lápide onde, a pedido dela, constara apenas a inscrição, “Era uma vez”.
― Fernanda O’Brien ―
Imagem: Pixabay
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