Quando chegou ao carro, estacionado em fila, constatou não sem algum desânimo que outro, idêntico, se detivera ao lado do seu. Ao aproximar-se, o motorista, que permanecera no interior, fê-lo deslizar para a frente, colocando-o a par do que se encontrava imediatamente adiante.

À tarde, no cocktail, estacou um instante na única clareira do salão. Olhando por sobre o ombro esquerdo, viu um homem
encostado à parede. Tinha uma perna ligeiramente fletida e fixava o telemóvel por cima dos óculos grossos com uma expressão que era cómica e circunspecta em iguais proporções. Girou o pescoço para o lado oposto. Junto a uma coluna, observou um sujeito de estatura parecida, na mesma pose mas em falso espelho, segurando o telemóvel a igual distância e fazendo uma careta que em tudo replicava a do primeiro.

Esvaziando os bolsos em casa, fez saltar duas moedas, que depois de rolarem pelo chão de forma aleatória, pararam no exato segundo junto uma da outra, ambas de dois euros.

Na cama, esforçava-se por fazer o balanço do dia. Os factos mantinham-se relutantes à interpretação, mas decerto encerravam algum sinal, uma mensagem vinda do futuro, que nortearia ações, traria certezas, consolos e esperança. Após mais algumas tentativas, desistiu. Prestes a adormecer, lembrou-se da melhor amiga, uma ingénua que andava sempre à procura de sentidos na vida.

― Fernanda O’Brien ―

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